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A Árvore que Fugiu do Quintal


Adoro comprar no Estante Virtual. Esta semana, fiz duas compras, que já estão em casa: “A Árvore Que Fugiu do Quintal” (1981), de Álvaro Ottoni e “Tratado Geral de Semiótica” (2007), de Umberto Eco.

Tratado Geral de Semiótica - Umberto Eco

Tratado Geral de Semiótica – Umberto Eco

O livro de Eco comprei motivado pela pesquisa de doutorado que desenvolvo em Linguística. Os aspectos não linguísticos que preciso reconhecer em interações entre professores e alunos de língua estrangeira me levaram a consultar o que diz Eco sobre semiótica. Já “A Árvore Que Fugiu do Quintal” foi uma tentativa de resgate nostálgico do meu primeiro livro infantil, memórias do ano de 1986. Enquanto fazia a compra online, percebi que há uma outra edição, bem mais recente, talvez ajustada para um novo público, e que talvez não satisfizesse o sentimento nostálgico que me movia. Não tive dúvida: escolhi a edição de 1981.

A Árvore Que Fugiu do Quintal, edição de 1981, de Álvaro Ottoni

A Árvore Que Fugiu do Quintal, edição de 1981, de Álvaro Ottoni

Quando criança, reli o livro dezenas de vezes, e revisitei as ilustrações outras dezenas delas. Não sei como me desfiz dele, mas provavelmente doei a algum sobrinho que estivesse ingressando nos primeiros anos escolares. Passear entre as páginas de A Árvore que Fugiu do Quintal vinte e tantos anos depois foi uma experiência quase tão vívida e cheia de descobertas quanto foi nos anos 1980, mas com uma profundidade especialmente característica do eu de 2015, quando, entre outras coisas, me sinto à vontade para perceber que o texto de Ottoni é indefectível.

Primeiras páginas de A Árvore Que Fugiu do Quintal

Primeiras páginas de A Árvore Que Fugiu do Quintal

Reconheci, nesse novo diálogo com o livro, que sou do tempo dos quintais. Talvez não de quintais tão amplos quanto aqueles do livro, que parecem ilustrar infâncias um pouco anteriores à minha. Ainda assim, na minha infância a gente subia em árvores, as do quintal e as que faziam sombra na calçada, na frente das casas, e deixavam as ruas mais bonitas e convidavam as pessoas a transitarem a pé sob o ambiente agradável que produziam. Havia canteiros de flores junto a elas, às vezes, que cresciam livres das intervenções paisagísticas e viviam rodeadas de borboletas. Era um universo muito parecido com o das ilustrações do livro, que sugeriam uma realidade cênica muito agradável aos olhos, ainda que simples e espontânea, e uma realidade urbana inegavelmente desejável do ponto de vista da busca por qualidade de vida. Isso tudo vale uma história paralela:

“O Segundo Voo”

Em algum ponto intermediário deste período, entre meu primeiro A Árvore que Fugiu do Quintal e minha cópia atual, quando eram poucos os computadores que vinham de fábrica com acesso à internet (início dos anos 2000), dediquei-me durante alguns dias livres a criar gifs animados, pela experiência e por diversão. Por conta das minhas limitações e as do equipamento, escolhi animar uma figura simples em situações simples: uma coruja sobre um galho que queria aprender a voar. Gostei tanto da brincadeira que a repeti 5 vezes, criando 5 pequenas animações em sequência (que se podem ver aqui). Como amostra, a segunda delas está logo aqui, à direita.

Detalhe das páginas iniciais

Detalhe das páginas iniciais

O que me causou espanto, ao receber o livro esta semana (além de notar que é bem menor do que parecia na época), foi notar que há uma coruja entre as ilustrações do livro, bem entre a primeira e a segunda página, cujos traços são muito semelhantes aos traços em que investi nas animações tantos anos depois. Espantou-me que, ainda que não me lembrasse das ilustrações do livro, elas possivelmente tinham tamanha importância no desenvolvimento de minhas representações estéticas que, mesmo inconscientemente, as reproduzi anos depois. Coisas para um consultório de psicanálise… Hoje, as árvores parecem ter perdido a importância espontânea que tinham no tempo dos quintais. Os Serjões – como o personagem do livro – possivelmente levaram a melhor sobre as árvores, o que equivale mais ou menos a dizer que o lucro levou a melhor sobre a qualidade de vida. O fato é que A Árvore que Fugiu do Quintal, além de afetivamente relevante para mim, em particular, nunca deixou de ser atual, pra quem é da época dos quintais e pra quem não é. Sobre o Tratado Geral de Semiótica, vou precisar de mais tempo para descobrir se o trabalho de Eco me ajudará a entender minha adesão subjetiva aos traços simbólicos e hachurados presentes nas ilustrações – pura semiótica.

Este texto é dedicado à Viviane Costa, amiga de infância que certamente compartilha comigo a cultura dos quintais, e ao João Groto Rodrigues, meu sobrinho de coração que tem menos de 2 anos de idade na data deste texto, mas que já manifesta um interesse especial por livros e que futuramente deverá encontrar esta dedicatória buscando por pura curiosidade seu próprio nome no Google.

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May 31, 2015 Posted by | Uncategorized | Leave a comment

   

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