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Histórias de professores dos anos 1980/1990 (parte 1)


Fala-se muito, nos dias de hoje, sobre a falta de autoridade do professor. Dizem que em décadas anteriores o aluno sabia respeitar o professor de maneira adequada, que a educação tinha qualidade superior, que tudo era melhor, enfim… Como testemunhei a educação nas décadas de 1980/1990 na posição de aluno e, nos dias atuais, sou professor com experiência em cenários de educação diversos, sinto-me à vontade para dizer que essas visões são uma ilusão.

Daqueles tempos (não tão gloriosos assim) para cá, a educação passou por mudanças, algumas positivas, outras negativas. Para ilustrar e apoiar a ideia de que aquela velha educação precisava passar pelas mudanças positivas pelas quais passou, compartilho alguns depoimentos pessoais aqui:

PARTE 1: “ESQUECI O CADERNO EM CASA”

Em 1987 eu cursava a terceira série do ensino fundamental. Todos os nossos cadernos eram brochuras, por tradição protegidas por um encapamento feito artesanalmente, geralmente com algum papel colorido que lembrasse papel de presente ou plástico decorado. Escrevíamos com lápis, e transitávamos gradualmente para a tinta permanente da caneta.

Era dia de mostrar à professora a tarefa que havia sido requerida no dia anterior. Ela visitava cada carteira individualmente para verificar quem fez e quem não fez, e para aplicar as sanções que acreditava que coubessem. Parecia normal para meu julgamento infantil. Procurei na mochila e nada do meu caderno. Onde estaria ele? Será que perdi? Não queria acreditar na perda do caderno. isso seria um problema junto à professora e junto aos meus pais, que não ficariam nada contentes (essa era a parte boa – pais que se davam conta da responsabilidade escolar de seus filhos).

“Esqueci o caderno em casa, professora” – foi o que disse a ela, de improviso, quando abordou a minha carteira assertivamente, cobrando-me pela tarefa. Eu esperava uma bronca, mas ela reagiu diferente: dirigiu-se em silêncio até a sua mesa, sentou-se, abriu a gaveta – que não era visível da minha perspectiva – estendeu o braço para alcançar alguma coisa lá dentro, fixou o olhar, levantou uma das sobrancelhas – acho que a direita – retirou a mão e fechou a gaveta.

“Então quer dizer que você esqueceu seu caderno em casa?” – disse, lançando sobre mim um olhar acusador.

“Acho que sim!” – disse eu, prevendo que, na verdade, tivesse esquecido meu caderno na própria sala no dia anterior e uma das funcionárias da limpeza (naquela época, por alguma razão, eram todas mulheres) tivesse guardado-o na gaveta do professor, como era de costume fazer com objetos esquecidos por alunos.

“Você sabia que mentir é muito feio, principalmente para os pais e para os professores?” – concluiu indignada diante de uma sala de 40 alunos que me olhava com expressão de curiosidade. O tom de indignação da professora enquanto me cobrava pela “falsa informação” que eu lhe havia dado me fazia sentir como se houvesse cometido um crime. Ela me humilhou bastante, em um discurso longo e desnecessário, aproveitando-se da posição de poder e da vulnerabilidade emocional de uma criança. O caderno de fato estava naquela gaveta, e foi-me devolvido em algum momento posterior da aula, talvez uma ou duas horas depois, retomando a atitude indignada ao me estender o objeto do crime. O suspense aparentemente era parte da cena.

Um professor ético, ao encontrar o caderno do aluno dentro da gaveta para onde vão os objetos perdidos teria devolvido-o de imediato, para tranquiliza-lo (eu estava visivelmente preocupado e revirava a mochila múltiplas vezes) e seu discurso seria mais parecido com

“Você esqueceu o caderno, mas na própria escola, e não em casa como havia pensado.”

Engano desfeito, ela teria devolvido-me o material, ainda que sob a sanção da tarefa descumprida, para que eu voltasse a usá-lo normalmente.

Mas, pouco ética que era, sentiu-se à vontade para exercer poder, proferindo um discurso acusatório dispensável, e sujeitar-me a ser apelidado de “mentiroso” pela turma. Durante o resto do ano, meus colegas de classe não perdiam quaisquer pretextos para se lembrarem de que eu havia sido oficializado como o mentiroso da sala pela própria professora, e isso era muito chato, especialmente porque eu não merecia e não gostava de ocupar um destaque tão negativo na maior comunidade social à qual eu pertencia: a sala da escola.

É verdade que os professores eram respeitados naquela época, e isso era bom. Mas, por outro lado, por que esse respeito deixava de ser retribuído ao aluno com certa frequência pelas pessoas em posição de poder, tais como o professor?

June 2, 2015 Posted by | Uncategorized | Leave a comment

   

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