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English Language Teaching in Brazilian settings

Vidas digitais 4


Quando nós, professores de linguagem, falamos sobre letramento digital, não podemos ignorar as condições em que os usuários do ciberespaço  – da internet, da hipermídia – exploram a linguagem e constroem conhecimento.

Na publicação intitulada Vidas digitais 3, neste blogue, sustento a possibilidade de que o ciberespaço seja um território linguístico fértil para o desenvolvimento e exercício da cidadania (clique aqui para saber mais). Há, contudo, contrapartidas menos otimistas sobre o papel da hipermídia na vida das pessoas. Antes de conhecê-las, detenhamo-nos em algumas considerações sobre o espaço e o tempo na internet:

Para Marc Augé (1994), vivenciamos um processo de ruptura do espaço-tempo. Os usuários do ciberespaço habitam um não-lugar, um espaço isento de relações simbólicas, míticas, identitárias e históricas – relações fundamentais ao desenvolvimento do sujeito social e do sujeito cultural.

O pensador Norbert Elias (1998) utiliza uma metáfora interessante para analisar a cultura moderna:

“Li, certa vez, a história de um grupo de pessoas que subia cada vez mais alto no interior de uma torre desconhecida e muito elevada. Os da primeira geração chegaram até o quinto andar, os da segunda, até o sétimo, os da terceira até o décimo. No correr do tempo, seus descendentes atingiram o centésimo andar. Foi então que a escada desmoronou. As pessoas se instalaram no centésimo andar. Com o passar do tempo, esqueceram de que um dia seus ancestrais haviam habitado os andares inferiores, e também a maneira como elas mesmas haviam chegado ao centésimo andar. Passaram a considerar o mundo, bem como a si mesmas, a partir da perspectiva do centésimo andar, ignorando como os seres humanos haviam chegado até ali. Chegavam até a acreditar que as representações que forjavam para si a partir da perspectiva de seu andar eram compartilhadas pela totalidade dos homens” (p. 108).

O centésimo andar, ou a cultura pós-moderna, está habitado, para Elias, por um grupo cuja identidade sofre de uma perda de contato com sua história e percebem a si mesmos como sujeitos atemporais, sujeitos de um único tempo.

Além da mudança na percepção de espaço e tempo, ganhamos velocidade, e a imersão da sociedade no que Paul Virilio (1993; 1997) chama de dromocultura (do grego, dromos, que significa corrida). Para o autor, a velocidade é resultado da compressão do espaço e tempo e induz os indivíduos a uma multiplicidade de significados, porém efêmeros e descartáveis, bem como pouco espaço para a reflexão.

A teoria da inteligência coletiva, concebida por Pierre Lévy, reconhece, ainda, a formação de um corpus de informação público baseado no conhecimento gerado pela atividade da coletividade no ciberespaço e armazenado na nuvem. Alguns debates têm apontado que o usuário da internet pode estar propenso a substituir certas funções da memória pelo acesso eletrônico à informação.

Em síntese, o usuário da hipermídia pode estar em todo lugar e não estar em parte alguma; pode experimentar a condição de solidão e pertencimento ao mesmo tempo; pode acessar informação diversa em velocidades há pouco tempo inimagináveis; também, sua representação do mundo não depende mais do lugar físico que ocupa.

Por um lado, essa configuração pode garantir às pessoas a oportunidade de articulação social irrestrita, já que as relações não dependem mais de proximidade espacial, bem como de articulação política, potencializando os processos democráticos, eliminando níveis hierárquicos e garantindo voz a cada um igualmente. Por outro lado, Virilio é menos otimista quanto a essas possibilidades políticas, já que, segundo o autor, no ciberespaço o senso comum é inflacionado. Além disso, a compressão espaço-tempo implica em que o homem tenha rompido a relação ancestral que até há pouco mantinha com a imobilidade (estar em um lugar apenas), e talvez não tenha tido tempo de se adaptar a essa nova condição, em prejuízo da percepção coletiva de civismo. De modo semelhante, a possibilidade de acesso eletrônico ao banco de informações armazenado na nuvem pode ser mais atraente, ao usuário, do que o uso da própria memória, muitas vezes em prejuízo de processos cognitivos essenciais à aprendizagem e à construção do conhecimento.

Nessas condições, portanto, o desenvolvimento de capacidades linguísticas e o desenvolvimento da cidadania no contexto da hipermídia parecem estar sujeitos à consciência que o usuário tem da configuração espaço-tempo e da posição que ocupa nesse cenário, de seu lugar na cultura (que não é mais local) e na sociedade. Ou seja, o processo de letramento digital depende do quão consciente o usuário está sobre essas condições, e de quais são as implicações desse quadro sobre a sua interação com o mundo.

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May 9, 2012 Posted by | Digital Life, Point of view | , , , , | Leave a comment

Vidas digitais 3


Com a internet, distâncias são encurtadas e fronteiras removidas em todo o mundo.

Os usuários do ciberespaço habitam um não-lugar que os coloca próximos de qualquer cultura, de qualquer universo, e de uma fantástica oportunidade de enxergar o seu próprio universo a partir de fora, do distanciamento, e consequentemente a oportunidade de ver sua cultura de uma perspectiva mais lúcida e reflexiva.

Com a internet, tudo o que é possível converter em formato digital pode ser compartilhado. Texto, fotos, vídeos, sons, eventos, ideias, projetos, debates, descobertas: a informação e o entretenimento ganham inúmeras formas e viajam a uma velocidade inédita, a ponto de ser desimportante o lado do planeta em que você está. E todos têm voz nesse processo. Cada sujeito pode criar, publicar, divulgar, comentar e compartilhar o conteúdo intelectual e cultural nessa esfera.

Trata-se de poder descentralizado sobre informação, cultura e conhecimento! Trata-se de um espaço propício para as pessoas se articularem ao redor de seus interesses.

Aparelhos de comunicação móvel desempenharam papel fundamental na chamada “Primavera Árabe”, quando a articulação dos povos de vários países derrubou tiranos das posições de governo no norte da África.

Nessas condições, vários países já derrubaram governos tiranos, Wall Street foi ocupada por manifestantes, vereadores foram impedidos de definir aumentos abusivos nos próprios salários. O livro “A Privataria Tucana“, de Amaury Ribeiro Jr., que denuncia esquemas de corrupção no governo PSDB, contornou barreiras impostas por outros meios de comunicação (como a TV) e teve sua visibilidade garantida na blogosfera. Tudo isso foi possível combinando grupos de pessoas dedicadas à cidadania + internet livre.

De fato, não se controla a informação e o conhecimento na internet livre. Isso se faz na TV: proprietários de emissoras e governo decidem que conteúdo deve ser transmitido, ao sabor de seus interesses particulares [clique aqui para saber mais]. E não há democracia nessas condições! Mas o processo democrático de descentralização do poder sobre a informação é um crédito conferido à dinâmica da internet tal como conhecemos hoje – ou até recentemente, talvez.

Digo isso porque esse processo democrático nunca pareceu tão ameaçado quanto nos últimos tempos.

Em 19 de janeiro deste ano, o governo estadunidense esteve prestes a debater projetos de lei antipirataria cujos textos apresentam nuanças ameaçadoras à internet livre. Os projetos de lei conhecidos como SOPA e PIPA, ainda que tenham tido sua votação adiada, continuam representando perigo, da seguinte maneira:

O Megaupload foi desativado. O responsável pelo site de compartilhamento preso na Nova Zelândia. A Wikipedia saiu do ar por um dia em protesto contra as leis antipirataria. Google, Twitter, Facebook e Amazon anunciaram a possibilidade de um blecaute. As notícias tinham cores apocalípticas.

“Imagine um mundo sem conhecimento livre. Por mais de uma década dedicamos milhões de horas construindo a maior enciclopédia da história humana. Neste momento, o Congresso dos EUA está debatendo uma lei que poderia prejudicar fatalmente a internet livre e aberta.” – dizia a notificação no endereço da Wikipedia na quarta-feira, 18 de janeiro de 2012, enquanto seu conteúdo permanecia offline por 24 horas.

Ao mesmo tempo, a internet no Brasil testemunhava o episódio “menos Luiza, que está no Canadá“, em que um colunista social da Paraíba apresenta um anúncio de apartamentos que prometem ser “a nova morada da sociedade de João Pessoa” e cita, para a surpresa do espectador, a ausência de sua filha Luiza em uma das cenas. Como não se pressupunha esperar que Luiza estivesse presente, a frase pareceu deslocada e despropositada, um pretexto forçoso para mencionar a viagem da filha na TV. O episódio chamou atenção localmente, por conta do disparate que representa, o que impulsionou repercussão nacional. Apesar do discurso centrista com marcas evidentes de elitismo – o que não soa agradável para todas as pessoas,  “menos Luiza, que está no Canadá” tornou-se o fato mais notório nas redes sociais durante aquela semana.

Ainda que os primeiros a fazerem piada com o caso, no contexto paraibano, tencionassem chamar atenção para o mau gosto que se via na peça publicitária, a repercussão em nível nacional era predominantemente alheia a isso. Falava-se sobre o que estava em voga falar. As piadas perseguiam o que era tendência, ainda que originalmente não tivesse graça.

Contudo, as ameaças a que a internet livre esteve sujeita, naqueles dias, tiveram atenção ironica e incomparavelmente menor, dos usuários brasileiros, que Luiza.

March 25, 2012 Posted by | Digital Life, Media | , , , , | Leave a comment

Vidas digitais 2


Lembrei-me desta imagem há poucos minutos, enquanto um amigo e eu debatíamos sobre as características textuais da Bíblia.

“Já li dois dos dez volumes de As Mil e Uma Noites e posso garantir: a Bíblia tem a mesma estrutura narrativa” – disse ele. Bem, eu não conheço muito sobre As Mil e Uma Noites, mas devo admitir que já conhecia relatos de que a Bíblia se vale de mitos egípcios adaptados em novas alegorias. É o caso de Horus, o deus antropozoomórfico egípcio cuja história se repete em outras culturas, inclusive na cristã, empregando outros nomes.

“Será que As Mil e Uma Noites é literatura egípcia?”  – questionei. “Isso representaria que a Bíblia se vale mais da cultura egípcia antiga do que imaginávamos”. – respondeu meu amigo, sinalizando que também não conhecia a origem da obra. Parecia que teríamos que abandonar a discussão, visitar uma boa biblioteca e só retornar ao assunto depois de alguns dias para chegar a uma conclusão. Foi quando o surpreendi – ou pensei tê-lo surpreendido – com uma linha a mais em nosso bate-papo online, que dizia: “As Mil e Uma Noites é literatura árabe concebida originalmente em persa”.

Eu esperava receber dele elogios e um exclamativo “Como você sabia disso???!!!!” . Esperava, também, gratidão. Afinal, graças à minha sapiência teríamos condições de continuar a discussão e avançar para a hipótese de que a Bíblia recebe influências, também, da cultura persa.

Mas nada me foi retribuído e eu logo tive que me conformar que a expressão de admiração seguida de “Como você sabe?” já não faz sentido mais. Não como há alguns anos. A informação estava ali, tão acessível e rápida quanto digitar meia dúzia de palavras e fazer um pequeno esforço de seleção de informações.

As pessoas não dependem mais de seu reportório cognitivo pessoal e dispor de informação não representa mais um mérito. E ao invés de teorizar sobre a “esfera semântica” e a “inteligência coletiva” de Levy, à minha cabeça só vem uma implicação sobre isso: o mundo pós-moderno é melancólico para quem gosta de receber elogios!

Epílogo:

“Eu googuei!” – confessei a ele, pouco depois de fornecer-lhe a informação. E não houve reações de surpresa, mais uma vez.

October 27, 2011 Posted by | Digital Life | , , , , | Leave a comment

Vidas digitais


As tecnologias digitais fazem parte da vida diária de quase todo mundo a ponto de dar forma a demandas de letramento específicas, bem como definir comportamentos e práticas sociais. Retratos – alguns deles extremos e irônicos – dessa força sobre a vida das pessoas têm sido publicados no meio digital, alguns deles reunidos pelo TOD nesta nova série de postagens que começa aqui:

"Em caso de incêndio, saia do edifício ANTES de tuitar sobre"

Divulgar tudo o que se vê ou se vivencia com o mínimo possível de atraso é um princípio comum entre usuários do Facebook e, principalmente, do Twitter. Este aviso instalado nas escadarias de um edifício é evidência da notoriedade desse tipo de comportamento social na rede, e explora de maneira bem humorada os riscos que corre o usuário por priorizar a divulgação.

Obcecados por mídias sociais ganham, ainda, outras caricaturas, como as que aparecem nessas tiras:

Ciúme na pós-modernidade

Discernimento digital: ele não tem

October 21, 2011 Posted by | Digital Life | , , , , | Leave a comment

   

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