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Ildevânia comenta #2: religião e a escola


Comentários como "Todas essas guerras acontecem por que essas pessoas não têm Jesus no coração" são um pecado mortal - com o perdão da expressão - para um professor.

Hoje eu estava lendo este blog, e descobri uma enquete sobre a manifestação religiosa pelo educador. A enquete pergunta se a educação deve ou não ser laica e fornece a opção de resposta:

“Eu acredito que o professor não precisa, necessariamente, tratar sobre temas religiosos em sala de aula, mas ele goza do direito de expressar sua religião livremente.”

Como assim? É opcional? Tanto faz? – Quem responderia um absurdo desses entende alguma coisa sobre educação? Se for professor, será que sabe o que faz?

Basta pensar um pouco (não precisa muito!) sobre suas responsabilidades como educador para descobrir as inconveniências de manifestar parcialidades religiosas no seu trabalho.

Primeiro, a religiões são formações que se opõem entre si em julgamentos sobre o que é certo e errado e, portanto, apresentam diferenças de valores morais, o que torna o território religioso propenso a acentuar diferenças e delimitar grupos. Na escola, que é um contexto predominantemente heterogêneo (e é saudável que assim seja), a parcialidade religiosa de um professor não poderia ser mais prejudicial à colaboratividade entre os aprendizes!

O educador que traz questões religiosas à tona deliberadamente, corre o risco de fazer emergir parâmetros de diferenciação entre seus alunos que podem comprometer a aprendizagem e a socialização do grupo.

Além do caso notório da professora que expulsou um de seus alunos da sala, sob acusações como “filho do capeta”, após ter descoberto colares de contas (típicas de religiões de matriz africana) que usava sob o uniforme, conheço casos mais sutis, mas que têm impacto igualmente destrutivo sobre os alunos.

Há a história, por exemplo, do professor de Língua Portuguesa que decidiu não trabalhar com livros que exploram culturas afro-brasileiras em suas aulas de literatura, especialmente motivado por frequentar uma igreja evangélica.  Este aparentemente negligencia a sua função de educador e compromete o currículo escolar sem cerimônia ou dor na consciência.

Mais sutil e perigosa, ainda, é a abordagem do professor que cita seus valores religiosos para avaliar fatos históricos. Comentários como “Todas essas guerras acontecem por que essas pessoas não têm Jesus no coração” são um pecado mortal – com o perdão da expressão – para um professor. O aluno judeu, islâmico, budista, ateu, ou de qualquer outra origem não cristã (e que, portanto, não reconhece Jesus como divindade) pode ser promovido a culpado e associado a perigo ou ameaça (ou se sentir assim).

[Atualização em 03/04/2012] Mais recentemente, ainda, a prática de uma professora que conduzia sessões de oração em suas aulas em Miraí, MG, acabou se tornando um constrangimento para aluno ateu, que passou a ser depreciado pelos colegas por recusar participar das sessões.

Ignorar a hipótese de constrangimento e de conflito e correr tal risco revela a postura irresponsável de quem não está propriamente interessado em proporcionar situações de aprendizagem saudáveis. Não faça isso, OK, professor?

“Mas a manifestação de crenças religiosas é um direito constitucional” – retrucará aquela pessoa que não se deu ao trabalho de entender a seriedade profissional a que convido aqui. E eu responderei: escolha uma outra profissão qualquer.

Profa. Ildevânia Siqueira

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January 21, 2012 Posted by | Point of view | , , , | Leave a comment

Ildevânia comenta


Obcecada por crenças na educação, a Profa. Ildevânia não deixa escapar nada.

Hoje eu li no Twitter, no perfil de uma professora:

“antes era o orkut, agora é facebook e smartphone. não sei mais como incutir nos meus alunos q internet não leva a nada”

Que mania é essa agora de andarem dizendo por aí que os professores devem incutir ideias aos alunos? Eu não sei incutir nada a ninguém e tenho medo de quem saiba! Incutir é impor, é fazer questão, é estabelecer uma situação de baixa negociação, e nada disso tem a ver com ser professor. O que mais me impressiona é que parece que essa ideia de “incutir” foi “incutida” na cabeça de algumas pessoas, e nunca mais saiu de lá! Professora, passa pela sua cabeça que o aluno é um receptorzinho de informação e de comandos que está com defeito e não obedece?

“Sujeito individual de cognição, com disposição para condicionar hábitos e valores” não é lá a maneira mais inteligente de ver seus alunos! Isso se parece mais com o perfil de fiéis que aquele pastor da igreja da esquina, que está faturando muito com dízimo, gosta de ter! Alunos estão muito menos dispostos a serem doutrinados, então melhor desistir de incutir-lhes coisas.

E essa crença de que a internet não leva a nada? Minha senhora, por onde a senhora anda navegando pra ter uma visão dessas? Desculpem se estou sendo antipática, gente, mas essas crenças são de arrepiar!

Profa. Ildevânia Siqueira

September 19, 2011 Posted by | Point of view | , | Leave a comment

   

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