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English Language Teaching in Brazilian settings

Pontypool vs Saussure


Pontypool(2008) é um suspense canadense que conta a história de uma invasão zumbi de maneira pouco convencional. Os zumbis, que costumam ser as “estrelas” em outras produções do gênero, pouco aparecem e as pessoas não são infectadas por um vírus ou outro tipo correlato de ameaça biológica. Trata-se de uma infecção pela linguagem – especificamente pela língua inglesa – que deixaria Saussure inquieto.

 

Trailer de cinema

Sinopse

Durante um inverno rigoroso no interior do Canadá, a equipe de uma estação de rádio responsável pela programação ao vivo e pelo noticiário local se dá conta de que a os moradores da pequena cidade estão sendo infectados por uma anomalia e tornados zumbis. Abrigados no interior da estação, os personagens acompanham a tensa sequência de eventos (sem violência gráfica) até descobrirem que o fator contagioso está na linguagem. Algumas palavras de língua inglesa estariam infectadas e tornariam zumbis as pessoas que percebecem-nas semanticamente, ou seja, compreendêssem-nas.

Eis como a infecção linguística supostamente acontece:

“Está nas palavras” – diz Dr. Mendez, personagem de Hrant Alianak. “Não em todas as palavras, nem em todos os idiomas, mas em algumas. Algumas palavras estão infectadas e isso se espalha quando são faladas. Pode ser propagado através da percepção” – acrescenta. Grant Mazzy, o locutor interpretado por Stephen McHattie, pondera sobre a possibilidade de a transmissão da rádio disseminar a contaminação. “Não!” – garante Dr. Mendez, que conclui: “Se o ‘bug’ ingressa, não é em contato com o tímpano. É quando entendemos uma palavra que o vírus se hospeda”.

Tendo feito essas descobertas, os personagens passam a se prevenir da contaminação – e de fato conseguem – evitando conversar oralmente entre si e escrevendo suas mensagens em pedaços de papel para se comunicar. Em outros momentos, os personagens mudam de código e conversam em francês, evitando assim, as palavras infectadas da língua inglesa. Eis aí a falha linguística de Pontypool, pelo menos do ponto de vista do estruturalismo saussuriano.

Falha teórica

Se o contágio não ocorre pelo impacto da matéria sonora no tímpano, ou seja, pela captação da imagem acústica da palavra, o siginificante não é contagioso, e sim o significado – que é a percepção semântica. Dessa maneira, não se poderia evitar a infecção mudando a matéria do significante (do sonoro para o visual) ao trocar a língua falada pela língua escrita, uma vez que o significante veicula o significado independentemente de sua natureza material. A mudança de idioma também não seria uma boa solução. A mudança de código representa mera mudança no sistema de significantes. Os significados – que são o elemento contagioso – permanecem os mesmos.

Assim, se alguém em Pontypool se livra do risco de se tornar zumbi, não é graças a uma teoria linguística apurada, mas por pura sorte!

Ver esse filme foi inusitado por dois motivos. O primeiro deles é que, apesar de nunca ter gostado dos filmes de zumbis, este me divertiu bastante, talvez porque os zumbis propriamente ditos mal apareçam e as personagens centrais são muito bem contruídas e carismáticas. O segundo é que, em filmes parecidos com este, é muito comum notar situações “cientificamente impossíveis”. “Isaac Newton não aprovaria esses efeitos especiais” – é o que um amigo costumava dizer. Pontypool traz, para mim, a inédita situação do “linguisticamente impossível” em um filme, e de que talvez Saussure não aprovasse o cinema canadense!

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June 10, 2011 Posted by | Cinema, Media, Point of view | , , , | 1 Comment

   

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