Teacher on Demand

English Language Teaching in Brazilian settings

O novo professor e o cenário tecnológico


Em debate sobre tecnologias e letramento digital, professores do ensino público do estado de São Paulo definem uma agenda preliminar de questões relacionadas à educação no cenário digital e reconhecem o surgimento de um novo perfil de educadores.

As TICs – ou Tecnologias de Informação e Comunicação – e o letramento digital são conceitos relativamente novos que tem mobilizado professores a compreendê-los teoricamente, explorá-los e a identificar os impactos práticos sobre a cenário da educação atual.

Conceito teórico

Ana Paula Magri, professora na EE. Prof.Armando Gonçalves em Itanhém, SP, cita Soares (2002) e define o letramento digital como “um conjunto de habilidades que capacita o usuário da língua a responder adequadamente às demandas sociais que envolvem a utilização dos recursos tecnológicos e da escrita no meio digital” e assume: não se trata de domínio técnico dos recursos digitais pura e simplesmente. Mais que isso, Ana se apóia em Carmo (2003) e defende que o letramento digital inclui: “habilidades para construir sentidos a partir de textos multimodais, isto é, textos que mesclam palavras, elementos pictóricos e sonoros numa mesma superfície. Inclui também a capacidade para localizar, filtrar e avaliar criticamente informações disponibilizadas eletronicamente“.

Algumas justificativas

A oferta de letramento digital nas escolas se justifica principalmente pela evidência de que as pessoas estão se socializando, buscando conhecimento, se divertindo, comercializando, bem como realizando digitalmente, ou seja, mediadas pela tecnologia, outras atividades de relevância social. Evidentemente a educação não pode ignorar essas novas condições de uso da língua. Segundo a professora Patrícia Aparecida de Carvalho, da E.E. Bairro Cubatão em Itu, SP, o letramento digital pode “favorecer o amadurecimento dos alunos, a interação social, a capacidade de comunicar-se (sic), de colaborar, de mudança de atitudes, raciocínio e o prazer de aprender”. A professora Célia Regina dos Santos Barsoti de Rio Claro, SP, sugere, ainda, uma descrição de Kenski (2008) sobre a experiência do letramento digital na escola: “A incorporação da TIC na escola favorece a criação de redes individuais de significados e a constituição de uma comunidade de aprendizagem que cria sua própria rede virtual de interação e colaboração. Assim, é caracterizada por avanços e recuos em um movimento não-linear de interconexões em um espaço complexo, que conduz ao desenvolvimento educacional, social e cultural”.

O professor

Nesse cenário, o professor de linguas mantém o seu papel mas seu perfil deve sofrer alterações. Paulo Alexandre Paliari, professor de inglês em Mogi Guaçu, SP, sugere o perfil do professor tal como concebido por infográfico da versão online da revista Veja:

Ainda que uma parte considerável dos 35 professores reunidos neste debate declarassem dificuldades na utilização e falta de conhecimento sobre tecnologias, o grupo compartilha a perspectiva de que o professor não apenas deve se preparar tecnicamente como deve ser capaz de selecionar e fazer uso de recursos tecnológicos a favor de sua prática de ensino, ainda que esse processo de revisão e transformação docente seja difícil para educadores formados na tradição da educação autoritária e centralizadora, comenta o professor Paulo. Silvana Pacola, professora na E.E.Prof.Valério Strang em Mogi Mirim, SP, corrobora com essa afirmação. Segundo ela, a noção de letramento está sujeita a mudanças constantes, o que demanda o esforço de atualização igualmente constante dos professores. “Tem que estar ‘ligado’, falei???” – conclui, com bom humor, a  PCOP na Diretoria Regional de Ensino de Piracicaba, Elizabeth do Carmo Médola.

Simetria de relações

A PCOP Elizabeth acredita e reconhece, também, que a  parcela da comunidade escolar que melhor conhece e domina as tecnologias são os alunos, o que lhes confere certa vantagem sobre a própria equipe escolar. “Os estudantes de hoje são considerados ‘nativos digitais’, ou seja, nasceram na era digital e estão crescendo e evoluindo com ela. Nós, professores, somos ‘imigrantes digitais’, para nós tudo é novo” – completa a professora coordenadora. Contudo, essa suposta assimetria não parece comprometer a relação entre educadores e aprendizes, de acordo com a perspectivas do grupo debatedor. Segundo Shirley Benedita de Paula, professora de São Paulo, capital do estado, a equipe escolar pode e deve se apoiar nos conhecimentos e habilidades dos alunos em atividades voltadas para o letramento digital. Isso, além de producente, pode aproximar professores e alunos, explica Shirley. Essas asserções corroboram com o infográfico da revista veja sobre o novo professor que, na relação com os alunos, “admite não ter todas as respostas”, e “é parceiro do aluno e aprende com eles”.

 Acessibilidade

A dificuldade de acesso a equipamento adequado é apontada como o maior problema estrutural para a oferta de letramento digital na escola. Segundo os docentes que procuram fazer uso de computadores em suas aulas, a inadequação do equipamento está associada aos seguintes fatores:

  1. Ausência de equipamento ou equipamento em quantidade insuficiente;
  2. Ausência de pessoal especificamente responsável pelo equipamento na escola, como monitores ou técnicos, à disposição da comunidade escolar;
  3.  Ausência de manutenção regular;
  4. Falta de conexão com a internet ou conexão ineficiente.

Por outro lado, o programa Acessa Escola, voltado para a inclusão digital de comunidades escolares, é responsável por perspectivas mais otimistas, como a da professora Heloisa Helena Brianti, de Itapira, SP. “Meus alunos estão adorando as aulas do Acessa Escola uma vez por semana e também o data show” – conta. As professoras Heidiane Almeida Ramos da Cunha, da  E.E. Vereador José Rodrigues Freitas em Cajati, SP, e Rosa Jandira Cavenaghi da Rocha, da EE José Aparecido Munhoz em Mogi Mirim, SP, também se sentem privilegiadas pela disposição de uma unidade do programa do FDE. “Na minha escola também foi aberta a sala de Acessa Escola e a mesma está funcionando todos os dias, nos três períodos, e pude perceber que os alunos estão adorando” – comenta Rosa.

Esta é uma pequena agenda de informações preliminares geradas a partir do esforço colaborativo de 35 professores de inglês, que são também candidatos a especialistas pelo programa de pós-graduação da Redefor – Unesp, em uma discussão online. A experiência do letramento digital na escola tem uma agenda de questões a responder ainda maior e deve exigir algum tempo e trabalho, assumem os educadores. “O processo de mudanças na educação não é uniforme e muito menos fácil” – reconhece Paulo Paliari – mas o claro esforço intelectual dos educadores em cumprir essa agenda, mesmo que ainda pouco conhecida, revela profissionalismo e responsabilidade.

Leia mais: Tecnologias e a educação brasileira

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June 7, 2011 Posted by | Point of view | , , , , | 6 Comments

   

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