Teacher on Demand

English Language Teaching in Brazilian settings

Vidas digitais 4


Quando nós, professores de linguagem, falamos sobre letramento digital, não podemos ignorar as condições em que os usuários do ciberespaço  – da internet, da hipermídia – exploram a linguagem e constroem conhecimento.

Na publicação intitulada Vidas digitais 3, neste blogue, sustento a possibilidade de que o ciberespaço seja um território linguístico fértil para o desenvolvimento e exercício da cidadania (clique aqui para saber mais). Há, contudo, contrapartidas menos otimistas sobre o papel da hipermídia na vida das pessoas. Antes de conhecê-las, detenhamo-nos em algumas considerações sobre o espaço e o tempo na internet:

Para Marc Augé (1994), vivenciamos um processo de ruptura do espaço-tempo. Os usuários do ciberespaço habitam um não-lugar, um espaço isento de relações simbólicas, míticas, identitárias e históricas – relações fundamentais ao desenvolvimento do sujeito social e do sujeito cultural.

O pensador Norbert Elias (1998) utiliza uma metáfora interessante para analisar a cultura moderna:

“Li, certa vez, a história de um grupo de pessoas que subia cada vez mais alto no interior de uma torre desconhecida e muito elevada. Os da primeira geração chegaram até o quinto andar, os da segunda, até o sétimo, os da terceira até o décimo. No correr do tempo, seus descendentes atingiram o centésimo andar. Foi então que a escada desmoronou. As pessoas se instalaram no centésimo andar. Com o passar do tempo, esqueceram de que um dia seus ancestrais haviam habitado os andares inferiores, e também a maneira como elas mesmas haviam chegado ao centésimo andar. Passaram a considerar o mundo, bem como a si mesmas, a partir da perspectiva do centésimo andar, ignorando como os seres humanos haviam chegado até ali. Chegavam até a acreditar que as representações que forjavam para si a partir da perspectiva de seu andar eram compartilhadas pela totalidade dos homens” (p. 108).

O centésimo andar, ou a cultura pós-moderna, está habitado, para Elias, por um grupo cuja identidade sofre de uma perda de contato com sua história e percebem a si mesmos como sujeitos atemporais, sujeitos de um único tempo.

Além da mudança na percepção de espaço e tempo, ganhamos velocidade, e a imersão da sociedade no que Paul Virilio (1993; 1997) chama de dromocultura (do grego, dromos, que significa corrida). Para o autor, a velocidade é resultado da compressão do espaço e tempo e induz os indivíduos a uma multiplicidade de significados, porém efêmeros e descartáveis, bem como pouco espaço para a reflexão.

A teoria da inteligência coletiva, concebida por Pierre Lévy, reconhece, ainda, a formação de um corpus de informação público baseado no conhecimento gerado pela atividade da coletividade no ciberespaço e armazenado na nuvem. Alguns debates têm apontado que o usuário da internet pode estar propenso a substituir certas funções da memória pelo acesso eletrônico à informação.

Em síntese, o usuário da hipermídia pode estar em todo lugar e não estar em parte alguma; pode experimentar a condição de solidão e pertencimento ao mesmo tempo; pode acessar informação diversa em velocidades há pouco tempo inimagináveis; também, sua representação do mundo não depende mais do lugar físico que ocupa.

Por um lado, essa configuração pode garantir às pessoas a oportunidade de articulação social irrestrita, já que as relações não dependem mais de proximidade espacial, bem como de articulação política, potencializando os processos democráticos, eliminando níveis hierárquicos e garantindo voz a cada um igualmente. Por outro lado, Virilio é menos otimista quanto a essas possibilidades políticas, já que, segundo o autor, no ciberespaço o senso comum é inflacionado. Além disso, a compressão espaço-tempo implica em que o homem tenha rompido a relação ancestral que até há pouco mantinha com a imobilidade (estar em um lugar apenas), e talvez não tenha tido tempo de se adaptar a essa nova condição, em prejuízo da percepção coletiva de civismo. De modo semelhante, a possibilidade de acesso eletrônico ao banco de informações armazenado na nuvem pode ser mais atraente, ao usuário, do que o uso da própria memória, muitas vezes em prejuízo de processos cognitivos essenciais à aprendizagem e à construção do conhecimento.

Nessas condições, portanto, o desenvolvimento de capacidades linguísticas e o desenvolvimento da cidadania no contexto da hipermídia parecem estar sujeitos à consciência que o usuário tem da configuração espaço-tempo e da posição que ocupa nesse cenário, de seu lugar na cultura (que não é mais local) e na sociedade. Ou seja, o processo de letramento digital depende do quão consciente o usuário está sobre essas condições, e de quais são as implicações desse quadro sobre a sua interação com o mundo.

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May 9, 2012 Posted by | Digital Life, Point of view | , , , , | Leave a comment

Vidas digitais 3


Com a internet, distâncias são encurtadas e fronteiras removidas em todo o mundo.

Os usuários do ciberespaço habitam um não-lugar que os coloca próximos de qualquer cultura, de qualquer universo, e de uma fantástica oportunidade de enxergar o seu próprio universo a partir de fora, do distanciamento, e consequentemente a oportunidade de ver sua cultura de uma perspectiva mais lúcida e reflexiva.

Com a internet, tudo o que é possível converter em formato digital pode ser compartilhado. Texto, fotos, vídeos, sons, eventos, ideias, projetos, debates, descobertas: a informação e o entretenimento ganham inúmeras formas e viajam a uma velocidade inédita, a ponto de ser desimportante o lado do planeta em que você está. E todos têm voz nesse processo. Cada sujeito pode criar, publicar, divulgar, comentar e compartilhar o conteúdo intelectual e cultural nessa esfera.

Trata-se de poder descentralizado sobre informação, cultura e conhecimento! Trata-se de um espaço propício para as pessoas se articularem ao redor de seus interesses.

Aparelhos de comunicação móvel desempenharam papel fundamental na chamada “Primavera Árabe”, quando a articulação dos povos de vários países derrubou tiranos das posições de governo no norte da África.

Nessas condições, vários países já derrubaram governos tiranos, Wall Street foi ocupada por manifestantes, vereadores foram impedidos de definir aumentos abusivos nos próprios salários. O livro “A Privataria Tucana“, de Amaury Ribeiro Jr., que denuncia esquemas de corrupção no governo PSDB, contornou barreiras impostas por outros meios de comunicação (como a TV) e teve sua visibilidade garantida na blogosfera. Tudo isso foi possível combinando grupos de pessoas dedicadas à cidadania + internet livre.

De fato, não se controla a informação e o conhecimento na internet livre. Isso se faz na TV: proprietários de emissoras e governo decidem que conteúdo deve ser transmitido, ao sabor de seus interesses particulares [clique aqui para saber mais]. E não há democracia nessas condições! Mas o processo democrático de descentralização do poder sobre a informação é um crédito conferido à dinâmica da internet tal como conhecemos hoje – ou até recentemente, talvez.

Digo isso porque esse processo democrático nunca pareceu tão ameaçado quanto nos últimos tempos.

Em 19 de janeiro deste ano, o governo estadunidense esteve prestes a debater projetos de lei antipirataria cujos textos apresentam nuanças ameaçadoras à internet livre. Os projetos de lei conhecidos como SOPA e PIPA, ainda que tenham tido sua votação adiada, continuam representando perigo, da seguinte maneira:

O Megaupload foi desativado. O responsável pelo site de compartilhamento preso na Nova Zelândia. A Wikipedia saiu do ar por um dia em protesto contra as leis antipirataria. Google, Twitter, Facebook e Amazon anunciaram a possibilidade de um blecaute. As notícias tinham cores apocalípticas.

“Imagine um mundo sem conhecimento livre. Por mais de uma década dedicamos milhões de horas construindo a maior enciclopédia da história humana. Neste momento, o Congresso dos EUA está debatendo uma lei que poderia prejudicar fatalmente a internet livre e aberta.” – dizia a notificação no endereço da Wikipedia na quarta-feira, 18 de janeiro de 2012, enquanto seu conteúdo permanecia offline por 24 horas.

Ao mesmo tempo, a internet no Brasil testemunhava o episódio “menos Luiza, que está no Canadá“, em que um colunista social da Paraíba apresenta um anúncio de apartamentos que prometem ser “a nova morada da sociedade de João Pessoa” e cita, para a surpresa do espectador, a ausência de sua filha Luiza em uma das cenas. Como não se pressupunha esperar que Luiza estivesse presente, a frase pareceu deslocada e despropositada, um pretexto forçoso para mencionar a viagem da filha na TV. O episódio chamou atenção localmente, por conta do disparate que representa, o que impulsionou repercussão nacional. Apesar do discurso centrista com marcas evidentes de elitismo – o que não soa agradável para todas as pessoas,  “menos Luiza, que está no Canadá” tornou-se o fato mais notório nas redes sociais durante aquela semana.

Ainda que os primeiros a fazerem piada com o caso, no contexto paraibano, tencionassem chamar atenção para o mau gosto que se via na peça publicitária, a repercussão em nível nacional era predominantemente alheia a isso. Falava-se sobre o que estava em voga falar. As piadas perseguiam o que era tendência, ainda que originalmente não tivesse graça.

Contudo, as ameaças a que a internet livre esteve sujeita, naqueles dias, tiveram atenção ironica e incomparavelmente menor, dos usuários brasileiros, que Luiza.

March 25, 2012 Posted by | Digital Life, Media | , , , , | Leave a comment

Vidas digitais 2


Lembrei-me desta imagem há poucos minutos, enquanto um amigo e eu debatíamos sobre as características textuais da Bíblia.

“Já li dois dos dez volumes de As Mil e Uma Noites e posso garantir: a Bíblia tem a mesma estrutura narrativa” – disse ele. Bem, eu não conheço muito sobre As Mil e Uma Noites, mas devo admitir que já conhecia relatos de que a Bíblia se vale de mitos egípcios adaptados em novas alegorias. É o caso de Horus, o deus antropozoomórfico egípcio cuja história se repete em outras culturas, inclusive na cristã, empregando outros nomes.

“Será que As Mil e Uma Noites é literatura egípcia?”  – questionei. “Isso representaria que a Bíblia se vale mais da cultura egípcia antiga do que imaginávamos”. – respondeu meu amigo, sinalizando que também não conhecia a origem da obra. Parecia que teríamos que abandonar a discussão, visitar uma boa biblioteca e só retornar ao assunto depois de alguns dias para chegar a uma conclusão. Foi quando o surpreendi – ou pensei tê-lo surpreendido – com uma linha a mais em nosso bate-papo online, que dizia: “As Mil e Uma Noites é literatura árabe concebida originalmente em persa”.

Eu esperava receber dele elogios e um exclamativo “Como você sabia disso???!!!!” . Esperava, também, gratidão. Afinal, graças à minha sapiência teríamos condições de continuar a discussão e avançar para a hipótese de que a Bíblia recebe influências, também, da cultura persa.

Mas nada me foi retribuído e eu logo tive que me conformar que a expressão de admiração seguida de “Como você sabe?” já não faz sentido mais. Não como há alguns anos. A informação estava ali, tão acessível e rápida quanto digitar meia dúzia de palavras e fazer um pequeno esforço de seleção de informações.

As pessoas não dependem mais de seu reportório cognitivo pessoal e dispor de informação não representa mais um mérito. E ao invés de teorizar sobre a “esfera semântica” e a “inteligência coletiva” de Levy, à minha cabeça só vem uma implicação sobre isso: o mundo pós-moderno é melancólico para quem gosta de receber elogios!

Epílogo:

“Eu googuei!” – confessei a ele, pouco depois de fornecer-lhe a informação. E não houve reações de surpresa, mais uma vez.

October 27, 2011 Posted by | Digital Life | , , , , | Leave a comment

Vidas digitais


As tecnologias digitais fazem parte da vida diária de quase todo mundo a ponto de dar forma a demandas de letramento específicas, bem como definir comportamentos e práticas sociais. Retratos – alguns deles extremos e irônicos – dessa força sobre a vida das pessoas têm sido publicados no meio digital, alguns deles reunidos pelo TOD nesta nova série de postagens que começa aqui:

"Em caso de incêndio, saia do edifício ANTES de tuitar sobre"

Divulgar tudo o que se vê ou se vivencia com o mínimo possível de atraso é um princípio comum entre usuários do Facebook e, principalmente, do Twitter. Este aviso instalado nas escadarias de um edifício é evidência da notoriedade desse tipo de comportamento social na rede, e explora de maneira bem humorada os riscos que corre o usuário por priorizar a divulgação.

Obcecados por mídias sociais ganham, ainda, outras caricaturas, como as que aparecem nessas tiras:

Ciúme na pós-modernidade

Discernimento digital: ele não tem

October 21, 2011 Posted by | Digital Life | , , , , | Leave a comment

Tecnologias e a educação brasileira


Você sabia que as escolas brasileiras dispõem, em média, de 23 computadores instalados cada uma? Você sabia que desses 23 computadores, apenas 18 funcionam?

Essas são algumas das informações divulgadas pelo Cetic – Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação – na pesquisa TIC Educação 2010, que investigou não apenas a infraestrutura material das escolas, mas também a maneira como a equipe escolar se relaciona com as tecnologias digitais.

Infraestrutura material:

Os números* do Cetic indicam que 81% das escolas possuem um laboratório de informática com, em média, 18 aparelhos funcionando. 52% delas dispõem de um monitor responsável. 90% dos professores possuem equipamento de informática em casa, prevalecendo os computadores de mesa (86%) sobre os portáteis (48%), mas apenas 81% declara dispor de conexão com a internet em seus domicílios.

Quando convidados a falar sobre esses dados, professores apontam o número insuficiente de computadores na escola como principal obstáculo para o uso das TIC, seguido pelo número insuficiente de aparelhos conectados à internet. Conexão de baixa velocidade ou ineficiente, ausência de suporte técnico, equipamentos obsoletos e a falta de tempo e apoio pedagógico para a utilização das tecnologias são problemas também apontados pelos educadores.

A pesquisa também revela que as TIC têm pouco espaço na sala de aula. Apenas 4% das escolas dispõem de tecnologias no espaço da sala de aula propriamente dito, por conta da centralização de equipamento em salas especificamente voltadas para informática (ou outros espaços, como sala de professores, salas ocupadas por gestores e bibliotecas).

O computador ainda não penetrou o espaço da sala de aula. A sala de informática é o espaço específico utilizado para aprender com o apoio da tecnologia.

Cultura escolar:

Outros fatores que podem influenciar sobre as condições da oferta de letramento digital na escola estão relacionados às crenças e perspectivas motivadas culturalmente ou pela formação profissional da equipe escolar. Entre os 1541 professores entrevistados, por exemplo, 64% acreditam que o aluno tem mais conhecimento sobre tecnologia do que o docente. Parcelas consideráveis – de mais de 30% – não confiam no conteúdo da internet e acreditam que a rede pode trazer algum tipo de malefício sobre o usuário, como distorção da percepção de realidade e sobrecarga de informação. Outros docentes declaram, ainda, preferir métodos tradicionais de ensino ou não ter conhecimentos técnicos e pedagógicos para a utilização das TIC em favor de sua prática.

Para professores vinculados à Redefor, o impacto social das tecnologias justifica a necessidade de a escola oferecer a experiência do letramento digital a seus alunos.

O levantamento feito pelo Cetic dialoga bastante com a discussão levantada pelo artigo “O Novo professor e o Cenário Tecnológico“, publicado neste blog. Os docentes envolvidos no curso da Redefor apontam para os mesmos problemas de natureza estrutural, mas apresentam pontos de vista mais otimistas sobre a utilização das TIC na escola.

Em fóruns especificamente conduzidos para discutir o assunto, professores de inglês apontam as demandas digitais de letramento como a principal justificativa para a incorporação das tecnologias à estrutura física e cultural das instituições de ensino fundamental e médio. Na perspectiva desse grupo docente, as novas condições de uso da língua causada pela popularização das tecnologias de informação e comunicação demandam habilidades linguísticas sobre as quais a escola deve estar atenta e não ignorar em seu currículo.

Os resultados da pesquisa TIC Educação 2010 podem ser consultados integralmente em http://www.cetic.br/educacao/2010/

Links selecionados:

Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação

Rede São Paulo de Formação Docente  Teletandem Brasil: línguas estrangeiras para todos

August 17, 2011 Posted by | Point of view | , , , , | 1 Comment

Teletandem Brasil: línguas estrangeiras para todos


“Eu ajudo você a aprender minha língua e você me ajuda a aprender a sua!” – é como é descrita a atividade colaborativa de aprendizagem de línguas no site do Teletandem Brasil,  projeto que coloca universitários brasileiros interessados em aprender uma língua estrangeira em contato com universitários estrangeiros dispostos a aprender português.

Originalmente concebido na Unesp de Assis, SP, pelo Prof. João Antônio Telles, o Teletandem já tem parcerias na Georgetown University e na Virginia Commonwealth University, dos Estados Unidos, além de parcerias em andamento com outros países.

O vídeo a seguir, produzido na Virginia Commonwealth University, demonstra como o Teletandem funciona:

O site do projeto oferece, além de informações sobre a atividade, formulários para que universitários interessados possam se cadastrar.

Acesse Teletandem Brasil em: http://www.teletandembrasil.org

July 20, 2011 Posted by | Teletandem | , , , | Leave a comment

Lady Gaga e as TICs


Sob o slogan “a rede é o que você faz dela”, nova publicidade do Google Chrome ao som de Lady Gaga propõe integração de múltiplas ferramentas e interatividade máxima entre usuários.

Em tempos em que professores testam as “TICs* aplicadas ao ensino de línguas estrangeiras”, este vídeo promocional é bem representativo de como celebridades têm participado de um processo semelhante, buscando a aplicabilidade das tecnologias à atividade inédita de contato direto com seu público:

*Tecnologias de Informação e Comunicação

June 23, 2011 Posted by | Media | , , | Leave a comment

O novo professor e o cenário tecnológico


Em debate sobre tecnologias e letramento digital, professores do ensino público do estado de São Paulo definem uma agenda preliminar de questões relacionadas à educação no cenário digital e reconhecem o surgimento de um novo perfil de educadores.

As TICs – ou Tecnologias de Informação e Comunicação – e o letramento digital são conceitos relativamente novos que tem mobilizado professores a compreendê-los teoricamente, explorá-los e a identificar os impactos práticos sobre a cenário da educação atual.

Conceito teórico

Ana Paula Magri, professora na EE. Prof.Armando Gonçalves em Itanhém, SP, cita Soares (2002) e define o letramento digital como “um conjunto de habilidades que capacita o usuário da língua a responder adequadamente às demandas sociais que envolvem a utilização dos recursos tecnológicos e da escrita no meio digital” e assume: não se trata de domínio técnico dos recursos digitais pura e simplesmente. Mais que isso, Ana se apóia em Carmo (2003) e defende que o letramento digital inclui: “habilidades para construir sentidos a partir de textos multimodais, isto é, textos que mesclam palavras, elementos pictóricos e sonoros numa mesma superfície. Inclui também a capacidade para localizar, filtrar e avaliar criticamente informações disponibilizadas eletronicamente“.

Algumas justificativas

A oferta de letramento digital nas escolas se justifica principalmente pela evidência de que as pessoas estão se socializando, buscando conhecimento, se divertindo, comercializando, bem como realizando digitalmente, ou seja, mediadas pela tecnologia, outras atividades de relevância social. Evidentemente a educação não pode ignorar essas novas condições de uso da língua. Segundo a professora Patrícia Aparecida de Carvalho, da E.E. Bairro Cubatão em Itu, SP, o letramento digital pode “favorecer o amadurecimento dos alunos, a interação social, a capacidade de comunicar-se (sic), de colaborar, de mudança de atitudes, raciocínio e o prazer de aprender”. A professora Célia Regina dos Santos Barsoti de Rio Claro, SP, sugere, ainda, uma descrição de Kenski (2008) sobre a experiência do letramento digital na escola: “A incorporação da TIC na escola favorece a criação de redes individuais de significados e a constituição de uma comunidade de aprendizagem que cria sua própria rede virtual de interação e colaboração. Assim, é caracterizada por avanços e recuos em um movimento não-linear de interconexões em um espaço complexo, que conduz ao desenvolvimento educacional, social e cultural”.

O professor

Nesse cenário, o professor de linguas mantém o seu papel mas seu perfil deve sofrer alterações. Paulo Alexandre Paliari, professor de inglês em Mogi Guaçu, SP, sugere o perfil do professor tal como concebido por infográfico da versão online da revista Veja:

Ainda que uma parte considerável dos 35 professores reunidos neste debate declarassem dificuldades na utilização e falta de conhecimento sobre tecnologias, o grupo compartilha a perspectiva de que o professor não apenas deve se preparar tecnicamente como deve ser capaz de selecionar e fazer uso de recursos tecnológicos a favor de sua prática de ensino, ainda que esse processo de revisão e transformação docente seja difícil para educadores formados na tradição da educação autoritária e centralizadora, comenta o professor Paulo. Silvana Pacola, professora na E.E.Prof.Valério Strang em Mogi Mirim, SP, corrobora com essa afirmação. Segundo ela, a noção de letramento está sujeita a mudanças constantes, o que demanda o esforço de atualização igualmente constante dos professores. “Tem que estar ‘ligado’, falei???” – conclui, com bom humor, a  PCOP na Diretoria Regional de Ensino de Piracicaba, Elizabeth do Carmo Médola.

Simetria de relações

A PCOP Elizabeth acredita e reconhece, também, que a  parcela da comunidade escolar que melhor conhece e domina as tecnologias são os alunos, o que lhes confere certa vantagem sobre a própria equipe escolar. “Os estudantes de hoje são considerados ‘nativos digitais’, ou seja, nasceram na era digital e estão crescendo e evoluindo com ela. Nós, professores, somos ‘imigrantes digitais’, para nós tudo é novo” – completa a professora coordenadora. Contudo, essa suposta assimetria não parece comprometer a relação entre educadores e aprendizes, de acordo com a perspectivas do grupo debatedor. Segundo Shirley Benedita de Paula, professora de São Paulo, capital do estado, a equipe escolar pode e deve se apoiar nos conhecimentos e habilidades dos alunos em atividades voltadas para o letramento digital. Isso, além de producente, pode aproximar professores e alunos, explica Shirley. Essas asserções corroboram com o infográfico da revista veja sobre o novo professor que, na relação com os alunos, “admite não ter todas as respostas”, e “é parceiro do aluno e aprende com eles”.

 Acessibilidade

A dificuldade de acesso a equipamento adequado é apontada como o maior problema estrutural para a oferta de letramento digital na escola. Segundo os docentes que procuram fazer uso de computadores em suas aulas, a inadequação do equipamento está associada aos seguintes fatores:

  1. Ausência de equipamento ou equipamento em quantidade insuficiente;
  2. Ausência de pessoal especificamente responsável pelo equipamento na escola, como monitores ou técnicos, à disposição da comunidade escolar;
  3.  Ausência de manutenção regular;
  4. Falta de conexão com a internet ou conexão ineficiente.

Por outro lado, o programa Acessa Escola, voltado para a inclusão digital de comunidades escolares, é responsável por perspectivas mais otimistas, como a da professora Heloisa Helena Brianti, de Itapira, SP. “Meus alunos estão adorando as aulas do Acessa Escola uma vez por semana e também o data show” – conta. As professoras Heidiane Almeida Ramos da Cunha, da  E.E. Vereador José Rodrigues Freitas em Cajati, SP, e Rosa Jandira Cavenaghi da Rocha, da EE José Aparecido Munhoz em Mogi Mirim, SP, também se sentem privilegiadas pela disposição de uma unidade do programa do FDE. “Na minha escola também foi aberta a sala de Acessa Escola e a mesma está funcionando todos os dias, nos três períodos, e pude perceber que os alunos estão adorando” – comenta Rosa.

Esta é uma pequena agenda de informações preliminares geradas a partir do esforço colaborativo de 35 professores de inglês, que são também candidatos a especialistas pelo programa de pós-graduação da Redefor – Unesp, em uma discussão online. A experiência do letramento digital na escola tem uma agenda de questões a responder ainda maior e deve exigir algum tempo e trabalho, assumem os educadores. “O processo de mudanças na educação não é uniforme e muito menos fácil” – reconhece Paulo Paliari – mas o claro esforço intelectual dos educadores em cumprir essa agenda, mesmo que ainda pouco conhecida, revela profissionalismo e responsabilidade.

Leia mais: Tecnologias e a educação brasileira

June 7, 2011 Posted by | Point of view | , , , , | 6 Comments

Oficina “Google Tradutor”


Muitas pessoas que não podem ler em inglês utilizam, desavisadamente, ferramentas de tradução eletrônica como o Google Tradutor para gerar uma versão traduzida do documento original. Nessa estatística estão certamente inclusos uma parte dos alunos dos ensinos fundamental e médio que equivocadamente depositam na ferramenta a responsabilidade de garantir a significação do texto original. Como professor, reconheço que o Google Tradutor não reúne, ainda, um corpus de informação linguística que possibilite abranger a estilística e o nível discursivo do texto, podendo gerar traduções inusitadas, sem sentido, ou até mesmo com sentido oposto ao original, sem falar nas deficiências gramaticais, especialmente relacionadas às concordâncias e aos tempos verbais. As ferramentas de tradução eletrônica são, na verdade, ainda bastante restritivas. Com o objetivo de ajudá-los a comprender como funciona – e como não funciona – o tradutor eletrônico, elaborei e disponho aqui, para discussão e utilização, a seguinte sequência de exercícios: Continue reading

May 8, 2011 Posted by | Workshop | , , , | 2 Comments

   

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